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Artigos · CCIH

Infecção de sítio cirúrgico: quais são os critérios diagnósticos da NT 03/2026 da Anvisa?

Por Enf.ª Julliana Porto · 25 de jun. de 2026

A NT 03/2026 da Anvisa classifica a infecção de sítio cirúrgico em três níveis, incisional superficial, incisional profunda e órgão/cavidade, cada um com critérios próprios no Quadro 35. A janela de vigilância é de 30 dias para cesariana e de 90 dias para prótese mamária, quadril, joelho, revascularização do miocárdio, derivação neurológica e catarata.

Resposta rápida

  • A NT 03/2026 da Anvisa, de 2 de janeiro de 2026, define os critérios de ISC no Quadro 35: incisional superficial, incisional profunda e órgão/cavidade.
  • A janela é de 30 dias para cesariana. É de 90 dias para prótese mamária, quadril e joelho primários, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata. O dia 1 é a data da cirurgia.
  • Fecharam dois níveis na mesma incisão? Computa-se só o plano mais profundo.
  • Diagnóstico do cirurgião é critério nos três níveis. Em órgão/cavidade, precisa somar um critério de sítio específico do Quadro 36.
  • Cultura de swab não vale. Inflamação mínima e secreção limitada aos pontos de sutura não são ISC.

O que é infecção de sítio cirúrgico

Pela NT 03/2026, infecção de sítio cirúrgico é a infecção relacionada a procedimento cirúrgico em paciente internado ou ambulatorial. Procedimento cirúrgico é aquele com pelo menos uma incisão, incluindo via laparoscópica e orifício de trépano. É feito em centro cirúrgico, sala de cesariana ou sala de radiologia intervencionista. A classificação segue o plano acometido: pele e subcutâneo (superficial), fáscia e músculo (profunda) ou órgão e cavidade manipulados na cirurgia. Para a ISC, a data da infecção é sempre a data do procedimento. A OMS publicou em 2018 a segunda edição de suas diretrizes de prevenção de ISC, com 29 recomendações.

O que a norma exige

A Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 03/2026 traz os critérios diagnósticos das IRAS de notificação nacional obrigatória para 2026. Ela é uma revisão da NT 03/2025. A própria nota informa que as alterações ocorreram apenas nos critérios de ISC. Foram incluídos os critérios de sítios específicos que podem ser classificados como ISC de órgão/cavidade. A versão de 14 de julho de 2026 renumerou o antigo Quadro 36 para Quadro 35. Incluiu nota nos três critérios: o tempo de vigilância depende do procedimento, não do nível da infecção.

A Nota Técnica nº 01/2026 orienta a vigilância. Ela se destina a todos os serviços de saúde. Em especial aos que têm centro cirúrgico com cesariana, mamoplastia com implante, artroplastia primária de joelho ou quadril. Também aos que fazem revascularização do miocárdio, derivações internas neurológicas ou facectomia. A vigilância de ISC deve cobrir o período de 30 ou 90 dias conforme a cirurgia. Para cesariana, a nota exige vigilância por objetivo e pós-alta, por método prospectivo. A notificação mensal dessas ISC segue a NT 02/2026.

Critérios: os três níveis do Quadro 35

Em todos os níveis, basta um critério. Culturas por swab não são aceitas. O exame microbiológico precisa ter sido feito para diagnóstico ou tratamento, não para vigilância.

Nível Plano envolvido Critérios (pelo menos um)
Incisional superficial Pele e subcutâneo Drenagem purulenta da incisão superficial; microrganismo identificado em secreção ou tecido colhido assepticamente; incisão aberta pelo cirurgião com dor, sensibilidade, edema, hiperemia ou calor; diagnóstico de infecção superficial pelo cirurgião ou outro médico
Incisional profunda Fáscia e músculo Drenagem purulenta da incisão profunda, não originada de órgão/cavidade; incisão profunda aberta ou aspirada, com microrganismo identificado ou sem exame, mais febre acima de 38 ºC, dor ou sensibilidade; abscesso ou outra evidência em exame clínico, anatomopatológico ou de imagem; diagnóstico pelo cirurgião ou médico assistente
Órgão/cavidade Órgão ou cavidade aberta ou manipulada na cirurgia Drenagem purulenta de dreno colocado no órgão/espaço; microrganismo em secreção ou tecido do órgão/cavidade; abscesso ou evidência em exame anatômico, histopatológico ou de imagem; diagnóstico pelo cirurgião ou outro médico. E, obrigatoriamente, um critério de sítio específico

Duas observações do quadro mudam a classificação. Osteomielite do esterno após cirurgia cardíaca e endoftalmite são órgão/cavidade. Cirurgia endoscópica com penetração de cavidade usa os critérios de órgão/cavidade.

A hierarquia é expressa: computar e notificar sempre o plano mais profundo. Superficial e profunda na mesma incisão contam como profunda. Profunda e órgão/cavidade contam como órgão/cavidade. Com mais de uma incisão, cada uma é avaliada. Na revascularização do miocárdio, a área doadora da safena é a incisão secundária e também entra.

O Quadro 36 lista, por procedimento, as infecções de sítio específico que podem ser ISC de órgão/cavidade. Para prótese mamária: abscesso ou mastite. Para quadril e joelho: osteomielite e infecção articular periprotética. Para catarata: endoftalmite. Para cesariana: endometrite, infecção do trato gastrointestinal, intra-abdominal, de tecido pélvico profundo e do sistema urinário. Para revascularização: miocardite, endocardite, mediastinite, infecção arterial ou venosa, osteomielite e outras.

Prazos: a janela de 30 ou 90 dias

Procedimento de notificação nacional obrigatória Janela de vigilância
Cesariana 30 dias
Implante de prótese mamária 90 dias
Prótese de quadril primária 90 dias
Prótese de joelho primária 90 dias
Revascularização do miocárdio 90 dias
Derivação interna neurológica 90 dias
Catarata 90 dias

O dia 1 é a data da cirurgia. Se o paciente voltar ao centro cirúrgico para nova abordagem no mesmo sítio, a contagem reinicia do zero. A nova abordagem não entra no denominador, e a data da infecção continua sendo a do procedimento inicial. Para micobactéria não tuberculosa ou de crescimento rápido, o critério vale até 24 meses após a cirurgia. A notificação é obrigatória no formulário de surtos.

A vigilância pós-alta é busca ativa de ISC em quem já saiu do serviço, durante os 30 ou 90 dias. A NT 01/2026 traz o exemplo do indicador: 8 ISC em 160 cesarianas no mês dá incidência de 5%. Como fazer a busca pós-alta está em busca ativa de 90 dias na prótese mamária.

Erros mais comuns

  • Contar os 30 ou 90 dias a partir da alta, e não da data da cirurgia.
  • Classificar pela infecção, não pelo procedimento: a prótese mamária é 90 dias mesmo se a ISC for superficial.
  • Notificar superficial e profunda na mesma incisão como dois casos.
  • Aceitar cultura de swab ou secreção dos pontos de sutura como critério.
  • Fechar órgão/cavidade sem o critério de sítio específico do Quadro 36.

Esses erros vêm do improviso: planilha solta, profissional sozinho decidindo sem o quadro, busca pós-alta que depende de memória. A obrigação é certa. O dia da fiscalização, não.

Como a SEVS resolve

Os profissionais da SEVS compõem a CCIH com colaboradores da unidade. Eles aplicam o Quadro 35 caso a caso, com a equipe assistencial, como a NT 03/2026 orienta. No SentinelSaúde, cada cirurgia monitorada abre uma janela de 30 ou 90 dias contada da data do procedimento. Busca ativa e contato pós-alta ficam programados. O caso é classificado pelo nível, com o critério de sítio específico em órgão/cavidade, e segue para a notificação mensal. Conheça a assessoria da SEVS para hospitais e clínicas de todo o Brasil.

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Perguntas frequentes

Quais são os tipos de infecção de sítio cirúrgico?

Três: incisional superficial (pele e subcutâneo), incisional profunda (fáscia e músculo) e órgão/cavidade (órgão ou espaço aberto ou manipulado na cirurgia). As incisionais ainda se dividem em primária e secundária, quando há mais de uma incisão.

Qual o critério para ISC superficial?

Um dos quatro: drenagem purulenta da incisão superficial; microrganismo identificado em secreção ou tecido colhido assepticamente; incisão aberta pelo cirurgião com dor, edema, hiperemia ou calor; ou diagnóstico de infecção superficial pelo médico. Swab e secreção limitada aos pontos não contam.

Quando a ISC é profunda ou de órgão/cavidade?

Profunda quando envolve fáscia ou músculo, com drenagem purulenta, abertura da incisão com sinais, abscesso ou diagnóstico médico. Órgão/cavidade quando envolve plano mais profundo que fáscia e músculo. Além do critério geral, fecha um critério de sítio específico do Quadro 36.

A janela é de 30 ou 90 dias?

Depende do procedimento, não do nível da infecção. Cesariana: 30 dias. Prótese mamária, quadril e joelho primários, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata: 90 dias. O dia 1 é a data da cirurgia.

Diagnóstico médico basta para contar como ISC?

Nos níveis superficial e profunda, o diagnóstico do cirurgião ou de outro médico é um dos critérios aceitos. Em órgão/cavidade, o diagnóstico precisa vir acompanhado de um critério de sítio específico. A NT 03/2026 orienta que a conclusão do caso seja conjunta entre a CCIH e a equipe assistencial.

Julliana Porto

Quem escreveu

Enf.ª Julliana Porto

Especialista em Gestão de Saúde, Controle de Infecção Hospitalar e Segurança do Paciente. Na área desde 2010, conduz tecnicamente o trabalho da SEVS em hospitais e clínicas.

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