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Artigos · Busca ativa

Infecção de prótese mamária: por que a vigilância dura 90 dias e como fazer busca ativa?

Por Enf.ª Julliana Porto · 9 de abr. de 2026

A infecção de prótese mamária é vigiada por 90 dias porque a NT 03/2026 da Anvisa adota esse prazo para ISC profunda e de órgão/cavidade com implante. Como os sinais surgem com a paciente em casa, a busca ativa pós-alta por telefone e WhatsApp é a forma de saber o que aconteceu.

Resposta rápida

  • A infecção de prótese mamária é vigiada por 90 dias após a cirurgia, conforme a NT 03/2026 da Anvisa.
  • Na cesariana, a janela de vigilância da infecção de sítio cirúrgico (ISC) é de 30 dias. Nas demais cirurgias de notificação nacional, de 90 dias.
  • A ISC se classifica em três níveis: incisional superficial, incisional profunda e órgão/cavidade.
  • A NT 02/2026 tornou obrigatória a notificação mensal de ISC em implante mamário para hospitais com centro cirúrgico.
  • A busca ativa pós-alta cobre os 90 dias com cinco contatos: D+7, D+15, D+30, D+60 e D+90.

O que é infecção de prótese mamária

A infecção de prótese mamária é uma infecção de sítio cirúrgico em mamoplastia com implante. O implante é um corpo estranho permanente, e isso muda a dinâmica da infecção. O biofilme sobre a prótese pode se formar devagar. Os sinais surgem semanas depois, quando a paciente já está em casa. Por isso a vigilância não termina na alta. A única forma de saber o que aconteceu é ir atrás da paciente. É isso que se chama busca ativa pós-alta.

O que a norma exige

A Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 03/2026 é de 2 de janeiro de 2026. Ela define os critérios diagnósticos de IRAS. Para ISC profunda e de órgão/cavidade com implante, a janela de vigilância é de 90 dias. Sem implante, a janela é de 30 dias.

A NT 02/2026 trata da notificação de IRAS e resistência microbiana. Com ela, a notificação mensal de ISC em implante mamário passou a ser obrigatória nacionalmente para hospitais com centro cirúrgico. A NT 01/2026 organiza a vigilância das IRAS nos serviços de saúde.

Os dois números da taxa vão para a Anvisa até o 15º dia do mês seguinte. O numerador é o número de casos de ISC. O denominador é o número de mamoplastias com implante do mês, retirado do mapa cirúrgico.

Critérios: o que conta como infecção

A NT 03/2026 separa a ISC em três níveis. A classificação precisa ser feita por quem conhece os critérios, com o dado clínico registrado.

Nível O que atinge Sinais Janela
Incisional superficial Pele e subcutâneo Secreção purulenta pela incisão, dor ou sensibilidade local, edema, calor e hiperemia, com abertura da incisão ou diagnóstico do cirurgião 30 dias
Incisional profunda Fáscia e músculo Secreção purulenta profunda, deiscência espontânea ou abertura cirúrgica com febre ou dor localizada, abscesso em reoperação, imagem ou histopatologia 90 dias com implante
Órgão/cavidade A loja da prótese Secreção por dreno colocado no órgão/cavidade, abscesso ou outra evidência de infecção na loja do implante 90 dias com implante

Seroma sem sinais inflamatórios, deiscência limpa e contratura capsular não são infecção por si só. Confundir isso infla a taxa. Ignorar um abscesso de loja a subestima.

O dado real mostra a variação entre serviços. Como exemplo, o Relatório GRSS nº 03/2024 da Secretaria de Saúde do Distrito Federal analisou 2023. Foram 24 hospitais, 1.320 cirurgias de implante mamário, 32 ISC e taxa de 2,4%. O percentil 90 da rede foi 11,1%, e três hospitais ficaram acima dele. Um serviço que não acompanha suas pacientes não sabe se está em 2% ou em 11%. E não tem como mostrar isso ao fiscal.

Prazos: os cinco contatos da busca ativa

A busca ativa é um contato programado com a paciente depois da alta. É feita por telefone ou WhatsApp, com perguntas fixas sobre sinais de infecção. O boletim CEMPI News, da coordenação estadual de controle de infecção de Santa Catarina, recomenda esses canais. Também cita o e-mail para a vigilância pós-alta de ISC.

Ciclo Quando Objetivo
D+7 7 dias após a cirurgia Sinais precoces na incisão, febre, secreção, uso de antibiótico não previsto
D+15 15 dias Fechamento da incisão, retorno ao cirurgião, reabertura ou drenagem
D+30 30 dias Fecha a janela da ISC superficial; dor persistente, calor, endurecimento
D+60 60 dias Sinais tardios de loja: dor, assimetria nova, secreção, febre, exame de imagem
D+90 90 dias Encerramento da vigilância; confirmação de que não houve infecção ou registro do caso

Em cada contato, as perguntas são as mesmas, em linguagem simples. Teve febre? A cicatriz abriu, ficou vermelha, quente ou saiu secreção? Voltou ao médico ou foi a algum pronto-socorro? Tomou antibiótico? Fez algum procedimento na mama? Resposta positiva em qualquer item gera avaliação por profissional especializado da CCIH. Se preciso, a CCIH aciona o cirurgião.

Cada contato precisa deixar rastro. O mínimo que a Vigilância Sanitária espera encontrar:

  1. Identificação da paciente e da cirurgia: data, cirurgião e tipo de implante.
  2. Data e hora do contato, canal usado (ligação, WhatsApp) e quem fez.
  3. Tentativas sem resposta, com data.
  4. Resposta de cada pergunta do roteiro.
  5. Avaliação técnica: sem sinais, em observação, caso suspeito ou caso confirmado, com a classificação da NT 03/2026.
  6. Encaminhamento dado e desfecho.
  7. Data de encerramento da vigilância.

Esse histórico alimenta o numerador da taxa de ISC do mês.

Erros mais comuns

WhatsApp pessoal do profissional

O histórico fica no celular de uma pessoa. Quando ela sai de férias ou da empresa, a vigilância some com ela.

Planilha sem histórico

A célula mostra o último estado, não o caminho. O fiscal pergunta quando a paciente foi contatada e quem avaliou, e a planilha não responde.

Contato único

Ligar só uma vez, na segunda semana, não cobre os 90 dias. A ISC de loja costuma ser tardia.

Perguntas soltas

Sem roteiro fixo, cada profissional pergunta uma coisa e a classificação vira opinião.

Nenhuma regra para quem não responde

Paciente que não atende precisa de nova tentativa registrada. Também precisa de um limite definido para encerrar como perda de seguimento.

Como a SEVS resolve

Hospitais e clínicas de todo o Brasil contam com a assessoria da SEVS para operar CCIH e NSP conforme a norma. O registro é auditável. Assim chegam à inspeção da Vigilância Sanitária com a documentação pronta. No SentinelSaúde, cada cirurgia com implante entra na fila de busca ativa automaticamente. Os contatos de D+7 a D+90 são disparados por WhatsApp e ligação. Cada resposta fica no histórico da paciente, e a taxa mensal sai pronta para a Anvisa. É isso que a equipe da SEVS opera nos hospitais que atende.

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Perguntas frequentes

Por que a vigilância da infecção de prótese mamária dura 90 dias?

Porque a NT 03/2026 da Anvisa adota 90 dias para ISC profunda e de órgão/cavidade com implante. Na cesariana, o prazo é de 30 dias.

Seroma ou contratura capsular contam como infecção?

Não por si só. Seroma sem sinais inflamatórios, deiscência limpa e contratura capsular não são infecção. A classificação segue os critérios da NT 03/2026.

A notificação de ISC em implante mamário é obrigatória?

Sim. Com a NT 02/2026, a notificação mensal passou a ser obrigatória nacionalmente para hospitais com centro cirúrgico. Numerador e denominador vão para a Anvisa até o 15º dia do mês seguinte.

Quantos contatos a busca ativa pós-alta precisa ter?

Um roteiro que cobre a janela de 90 dias tem cinco contatos: D+7, D+15, D+30, D+60 e D+90. Um contato único na segunda semana não cobre a ISC de loja, que é tardia.

O que registrar em cada contato?

Data, hora, canal, quem fez, tentativas sem resposta, resposta de cada pergunta, avaliação técnica, encaminhamento e desfecho. Esse histórico é o que a Vigilância Sanitária espera encontrar.

Imagem: Docteur Spitalier Philippe, Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Julliana Porto

Quem escreveu

Enf.ª Julliana Porto

Especialista em Gestão de Saúde, Controle de Infecção Hospitalar e Segurança do Paciente. Na área desde 2010, conduz tecnicamente o trabalho da SEVS em hospitais e clínicas.

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