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Artigos · CCIH

Infecção urinária por cateter vesical: o que o bundle de prevenção da Anvisa exige?

Por Enf.ª Julliana Porto · 16 de jul. de 2026

A infecção urinária por cateter vesical de demora (ITU-AC) é a ITU sintomática em paciente com o cateter há mais de dois dias, pela NT 03/2026. O bundle do protocolo da Anvisa de 2025 exige indicação restrita, inserção asséptica, sistema fechado, fixação, avaliação diária e retirada precoce.

Resposta rápida

  • ITU-AC é a infecção urinária sintomática em paciente com cateter vesical de demora por mais de dois dias (NT 03/2026). O D1 é o dia da instalação.
  • É uma das IRAS de notificação nacional obrigatória, ao lado da IPCS por cateter central e da PAV (NT 03/2026).
  • O Protocolo de Prevenção de ITU da Anvisa (2025) define indicação restrita, inserção asséptica, sistema fechado, fixação e avaliação diária.
  • No pós-operatório, o cateter deve sair de preferência em até 24 horas, salvo contraindicação (protocolo Anvisa 2025; CDC 2009).
  • Indicadores: densidade de ITU-AC por 1.000 cateteres-dia e taxa de utilização de cateter, ambos mensais.

O que é infecção urinária por cateter vesical

A Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa 03/2026 define a ITU-AC. É a infecção do trato urinário em paciente com cateter vesical de demora por mais de dois dias consecutivos. Na data da infecção, o paciente está com o cateter ou o retirou no dia anterior. Pelo protocolo Anvisa 2025, o cateter de demora é o tubo inserido na bexiga pela uretra, conectado a bolsa coletora. Não contam nefrostomia, cateter suprapúbico, duplo J, cistostomia nem cateterismo intermitente. Bacteriúria sem sinais ou sintomas não é ITU: é bacteriúria assintomática. Outros termos estão no glossário.

O que a norma exige

A NT 03/2026 traz os critérios diagnósticos das IRAS de notificação nacional obrigatória para 2026. Para ITU-AC em paciente com mais de 3 anos, o critério exige três condições. Cateter há mais de dois dias (a partir do D3). Pelo menos um sinal ou sintoma sem outra causa. Febre acima de 38 ºC, dor suprapúbica ou lombar, hematúria, urgência, frequência ou disúria. E urocultura positiva com até duas espécies bacterianas, com ao menos uma em contagem igual ou superior a 10⁵ UFC/mL. Cultura de ponta de cateter não vale para o diagnóstico. Candida e leveduras não contam.

A Nota Técnica 11/2025 da Anvisa orienta os serviços a implementar protocolos de prevenção de IRAS em todas as unidades. Ela registra o dado da Avaliação Nacional das Práticas de Segurança do Paciente de 2023. O protocolo de ITU por cateter vesical foi o terceiro item com mais não conformidades. Por isso a Anvisa publicou, com a Ebserh, o modelo de protocolo de prevenção de ITU-AC, versão 1, de 2025.

A base legal da vigilância é a Portaria 2.616/1998. Os prazos e o formulário da notificação de IRAS estão em NOTIVISA: como notificar.

Critérios: os itens do bundle

Item do bundle O que o protocolo Anvisa 2025 pede Quem executa
Indicação restrita Retenção urinária, controle rigoroso de débito em paciente crítico, cirurgia com justificativa, lesão de pele em região glútea, sacral ou pélvica, irrigação por hematúria, imobilização prolongada, fim de vida Equipe médica e de enfermagem
Alternativas Cateterismo intermitente, coletor externo ou fralda, sempre que possível Equipe médica e assistencial
Inserção asséptica Higiene das mãos, luvas e campo estéreis, antisséptico e lubrificante estéril de uso único, menor calibre possível Profissional capacitado
Sistema fechado Sistema fechado e estéril com válvula antirrefluxo; bolsa abaixo da bexiga, sem contato com o chão Equipe multiprofissional
Fixação Fixar sem tração nem dobra, em coxa, região inguinal ou suprapúbica; trocar a fixação diariamente Equipe assistencial
Avaliação diária Discutir a necessidade do cateter todo dia; anotar os dias de uso no prontuário; lembrete de remoção Equipe multiprofissional
Registro Data, hora, profissional, calibre, volume do balonete e local de fixação Equipe assistencial

O protocolo pede checklist de inserção preenchido por outro profissional no momento do procedimento. A bolsa é esvaziada ao menos a cada turno ou ao atingir dois terços da capacidade. Troca do sistema só por obstrução, desconexão, vazamento, incrustação, mau funcionamento, suspeita de infecção ou validade do fabricante. Irrigação com antimicrobiano e antisséptico tópico são contraindicados.

Como calcular: densidade e taxa de utilização

Indicador Fórmula (protocolo Anvisa 2025, Apêndices G e H) Periodicidade
Densidade de incidência de ITU-AC casos novos de ITU-AC ÷ cateteres-dia no período × 1.000 mensal
Taxa de utilização de cateter vesical cateteres-dia ÷ pacientes-dia no período × 100 mensal

Cateter-dia é a soma diária dos pacientes com cateter. Exemplo do protocolo: 5 pacientes no dia 1, 6 no dia 2 e 4 no dia 3 somam 15 cateteres-dia. Paciente-dia segue a mesma lógica com todos os internados. O protocolo manda definir a meta pela série histórica e discutir os resultados com a equipe e a gestão.

Hospital sem UTI aplica o mesmo bundle nas enfermarias e no pós-operatório. O ponto de controle é a retirada em até 24 horas após a cirurgia. A diretriz do CDC de 2009 recomenda o mesmo: retirar no pós-operatório o quanto antes, de preferência em 24 horas. O CDC registra que as ITU respondem por mais de 30% das infecções relatadas por hospitais de cuidados agudos.

Erros mais comuns

  • Cateter mantido por conveniência da equipe em paciente com incontinência, uso que o CDC classifica como inadequado.
  • Bolsa coletora acima do nível da bexiga ou encostada no chão durante o transporte.
  • Urocultura colhida da bolsa ou da ponta do cateter, o que invalida o critério de vigilância.
  • Dias de uso do cateter sem registro no prontuário, o que impede a avaliação diária e o cálculo de cateteres-dia.
  • Protocolo escrito, mas sem checklist de inserção e sem indicador mensal.

O ponto comum é o improviso: cateter que ninguém revisa, planilha solta, profissional sozinho. A obrigação é certa. O dia da fiscalização, não.

Como a SEVS resolve

A SEVS atende hospitais e clínicas de todo o Brasil. Profissionais especializados compõem a CCIH e o NSP com colaboradores da unidade e implantam o bundle com a equipe assistencial. O SentinelSaúde faz a busca ativa, registra cateteres-dia, calcula a densidade de ITU-AC e guarda as notificações, com registro auditável. A assessoria da SEVS inclui inspeção simulada sem custo. Clínicas e hospitais atendidos pela SEVS operam a CCIH e o NSP conforme a norma. Chegam à inspeção da Vigilância com a documentação pronta.

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Perguntas frequentes

O que é ITU associada a cateter?

É a infecção urinária sintomática em paciente com cateter vesical de demora há mais de dois dias. O dia da instalação é o D1. Na data da infecção, o cateter está instalado ou foi retirado no dia anterior (NT 03/2026).

Quais são os itens do bundle de cateter vesical?

Indicação restrita, alternativas menos invasivas, inserção asséptica e sistema fechado abaixo da bexiga. Também fixação segura, avaliação diária, registro em prontuário e retirada precoce. Tudo conforme o Protocolo de Prevenção de ITU da Anvisa, 2025.

Quando retirar o cateter vesical?

Assim que a indicação clínica deixar de existir. No pós-operatório, de preferência em até 24 horas, salvo contraindicação como cirurgia urológica ou irrigação por hematúria. A retirada é registrada no prontuário com data, hora e profissional.

Como calcular a densidade de ITU por cateter-dia?

Divida os casos novos de ITU-AC do mês pelo total de cateteres-dia do mesmo mês e multiplique por 1.000. O cateter-dia é a soma diária dos pacientes com cateter instalado.

ITU por cateter é de notificação obrigatória?

Sim. A NT 03/2026 lista a ITU-AC entre as IRAS de notificação nacional obrigatória, junto com a IPCS e a PAV. A notificação segue o formulário e o prazo definidos pela Anvisa para o ano.

Imagem: Ad Meskens, wikimedia (CC BY-SA 4.0)

Julliana Porto

Quem escreveu

Enf.ª Julliana Porto

Especialista em Gestão de Saúde, Controle de Infecção Hospitalar e Segurança do Paciente. Na área desde 2010, conduz tecnicamente o trabalho da SEVS em hospitais e clínicas.

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