Ir para o conteúdo
Acessar

Artigos · CCIH

Indicadores de infecção hospitalar: quais são obrigatórios e como calcular cada taxa?

Por Enf.ª Julliana Porto · 4 de jun. de 2026

Os indicadores de infecção hospitalar obrigatórios pela Portaria 2.616/1998, Anexo III, item 5.12, são quatro: taxa de infecção hospitalar, taxa de pacientes com infecção, distribuição por topografia e letalidade, no mínimo em UTI, berçário de alto risco e queimados. Para a notificação nacional, a NT 01/2026 da Anvisa usa a densidade de incidência por 1.000 dispositivos-dia e a incidência de ISC por cirurgia.

Resposta rápida

  • A Portaria 2.616/1998, Anexo III, item 5.12, torna obrigatórios quatro indicadores: taxa de infecção hospitalar, taxa de pacientes com infecção, distribuição por topografia e letalidade.
  • A obrigação vale no mínimo para berçário de alto risco, UTI adulto, pediátrica e neonatal e queimados.
  • A NT 01/2026 da Anvisa define a densidade de incidência: casos novos divididos pelos pacientes-dia expostos ao risco, vezes 1.000.
  • Hospitais com UTI notificam à Anvisa a densidade de IPCSL, PAV e ITU-AC. Notificam também a taxa de utilização de cada dispositivo.
  • A notificação é mensal, até o 15º dia do mês seguinte ao mês de vigilância.

O que é indicador de infecção hospitalar

Indicador de infecção hospitalar é uma razão entre numerador e denominador em um período definido. O numerador traz casos ou pacientes com infecção. O denominador traz pacientes, saídas, pacientes-dia ou dispositivos-dia. Para a Portaria 2.616/1998, vigilância epidemiológica é a observação ativa, sistemática e contínua das infecções (Anexo III, item 1). O indicador transforma essa observação em número comparável mês a mês. Sem denominador coletado todo dia, o número não existe. Os termos estão no glossário.

O que a norma exige

A Portaria 2.616 é de 12 de maio de 1998. O Anexo III, item 3, recomenda métodos de busca ativa para a coleta de dados. O item 5 lista os indicadores a serem obtidos e analisados periodicamente. O item 5.12 torna obrigatórios os indicadores 5.1, 5.2, 5.3 e 5.11. Valem no mínimo em berçário de alto risco, UTI (adulto, pediátrica e neonatal) e queimados.

O item 6.1 manda a CCIH elaborar periodicamente um relatório com os indicadores interpretados e analisados. Esse relatório vai a todos os serviços e à direção. O item 6.2 exige que ele traga o nível endêmico, as alterações detectadas, as medidas adotadas e os resultados. O item 6.3 considera desejável que cada cirurgião receba, uma vez por ano, suas taxas de infecção em cirurgias limpas. Recebe também a média dos colegas da mesma especialidade.

A Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 01/2026, de 2 de janeiro de 2026, define os indicadores de notificação nacional. Hospitais com UTI notificam a densidade de incidência de IPCSL, PAV e ITU-AC. Notificam também a taxa de utilização de cada dispositivo e o perfil de resistência dos microrganismos. Hospitais com centro cirúrgico ou obstétrico notificam a incidência de ISC por cirurgia. A notificação é mensal, até o 15º dia do mês seguinte.

Como calcular: as fórmulas do Anexo III da Portaria 2.616/1998

Indicador Numerador Denominador Item
Taxa de infecção hospitalar Episódios de infecção no período Saídas (altas, óbitos e transferências) ou entradas 5.1
Taxa de pacientes com infecção Pacientes que tiveram infecção no período Saídas ou entradas no período 5.2
Distribuição por topografia Episódios em cada topografia Total de episódios no período 5.3
Taxa por procedimento Pacientes com infecção após um procedimento de risco Pacientes submetidos ao procedimento 5.4
Frequência por microrganismo Episódios causados por um microrganismo Total de episódios no período 5.8
Coeficiente de sensibilidade Cepas de um microrganismo sensíveis a um antimicrobiano Cepas testadas do mesmo agente 5.9
Taxa de letalidade Óbitos de pacientes com infecção no período Pacientes que desenvolveram infecção 5.11

O item 5.5 recomenda calcular 5.1 e 5.2 com pacientes-dia no denominador. Pacientes-dia é a soma dos dias de permanência de todos os pacientes no período (item 5.5.1). O item 5.6 admite procedimentos-dia para a taxa por procedimento. O item 5.7 cita a taxa de infecção do sítio cirúrgico por cirurgião e por especialidade.

Como calcular: densidade de incidência e taxa de utilização da NT 01/2026

A densidade de incidência (DI) considera o tempo de exposição ao dispositivo. A NT 01/2026 define assim:

DI = casos novos do evento no mês dividido pelo total de pacientes-dia expostos ao fator de risco, vezes 1.000.

O denominador exige coleta diária. Soma-se, dia a dia, o número de pacientes com o dispositivo. No exemplo da nota, 10 pneumonias em 200 pacientes em ventilação mecânica-dia dão DI de 50 por 1.000 ventilador-dia.

A taxa de utilização (TU) mostra quanto o fator de risco está presente na unidade:

TU = pacientes expostos ao fator de risco-dia dividido pelo total de pacientes-dia da unidade, vezes 100.

No mesmo exemplo, 200 ventilador-dia em 360 pacientes-dia dão TU de 55,6% (a nota imprime 56,6%).

Indicador nacional Numerador Denominador
DI de IPCSL Pacientes com IPCSL na UTI Pacientes com cateter central-dia na UTI
DI de PAV Pacientes com PAV na UTI Pacientes em ventilação mecânica-dia na UTI
DI de ITU-AC Pacientes com ITU-AC na UTI Pacientes com cateter vesical de demora-dia na UTI
TU de cada dispositivo Pacientes com o dispositivo-dia Pacientes-dia na UTI
Incidência de ISC ISC após a cirurgia vigiada Cirurgias do tipo realizadas no período

A incidência de ISC é notificada para cesariana, implante mamário e próteses primárias de quadril e de joelho. Também para revascularização do miocárdio e derivação interna neurológica. Serviços que fazem cirurgia de catarata notificam a endoftalmite após facectomia. O exemplo da nota: 8 ISC em 160 cesarianas dão 5%. A vigilância dura 30 dias na cesariana e 90 dias nas demais. O envio segue o roteiro de notificação no Notivisa.

Erros mais comuns

Denominador estimado no fim do mês

A NT 01/2026 exige soma diária dos pacientes com dispositivo. Chute no dia 30 não é indicador.

Taxa no lugar de densidade

Dividir casos por saídas ignora o tempo de exposição. Para IPCSL, PAV e ITU-AC a Anvisa pede densidade por 1.000 dispositivos-dia.

Indicador calculado e relatório ausente

O item 6.1 do Anexo III exige relatório periódico à direção e aos serviços, com análise.

Cirurgião sem a própria taxa

O item 6.3 prevê o relatório anual por cirurgião em cirurgia limpa. Sem ele, a ISC não muda.

Planilha de uma pessoa só

Fórmula na célula e histórico no computador de quem saiu de férias. O fiscal pede a série e não encontra.

Como a SEVS resolve

Na assessoria da SEVS, profissionais especializados compõem a CCIH com colaboradores da unidade e definem o plano de vigilância: setores, indicadores, fonte e horário da coleta. No SentinelSaúde, o censo diário de dispositivos alimenta o denominador e a busca ativa alimenta o numerador. A densidade de incidência sai calculada por unidade. O relatório mensal à direção e o relatório anual por cirurgião saem do mesmo registro. Antes da inspeção, a SEVS faz uma inspeção simulada sem custo. Clínicas e hospitais atendidos pela SEVS operam a CCIH e o NSP conforme a norma, com registro auditável, e chegam à inspeção da Vigilância com a documentação pronta.

Conversar com a SEVS

Perguntas frequentes

Quais indicadores a CCIH é obrigada a calcular?

Pela Portaria 2.616/1998, Anexo III, item 5.12: taxa de infecção hospitalar, taxa de pacientes com infecção, distribuição por topografia e letalidade. Valem no mínimo em UTI, berçário de alto risco e queimados. Hospitais com UTI ainda notificam à Anvisa a densidade de IPCSL, PAV e ITU-AC.

Como calcular a taxa de infecção hospitalar?

Número de episódios de infecção hospitalar no período dividido pelo total de saídas ou entradas no mesmo período (item 5.1). A portaria recomenda usar pacientes-dia no denominador (item 5.5).

O que é densidade de incidência?

Razão entre os casos novos no mês e o total de pacientes-dia expostos ao fator de risco, multiplicada por 1.000. É a medida da NT 01/2026 para IPCSL, PAV e ITU-AC.

Qual a diferença entre taxa e densidade?

A taxa usa pacientes ou saídas no denominador. A densidade usa dispositivos-dia e considera o tempo de exposição. Por isso a Anvisa adota a densidade nas infecções associadas a cateter e ventilador.

O cirurgião recebe a própria taxa de infecção?

A Portaria 2.616/1998, Anexo III, item 6.3, considera desejável que cada cirurgião receba anualmente suas taxas em cirurgias limpas. Recebe também a média dos colegas da mesma especialidade.

Julliana Porto

Quem escreveu

Enf.ª Julliana Porto

Especialista em Gestão de Saúde, Controle de Infecção Hospitalar e Segurança do Paciente. Na área desde 2010, conduz tecnicamente o trabalho da SEVS em hospitais e clínicas.

Conheça a SEVS

Leia também

Todos os artigos