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Artigos · Segurança do paciente

Cultura de segurança do paciente: como avaliar com o questionário da Anvisa e o que fazer com o resultado?

Por Enf.ª Julliana Porto · 13 de ago. de 2026

A cultura de segurança do paciente é avaliada com o E-Questionário de Cultura de Segurança Hospitalar da Anvisa, versão brasileira do HSOPS, em cinco passos: entender, preparar, definir quem responde, aplicar e aprender com os dados. O resultado sai em percentual de respostas positivas por dimensão: 75% ou mais é fortaleza, abaixo de 50% é fragilidade.

Resposta rápida

  • A RDC 36/2013 define cultura de segurança e manda o NSP disseminá-la de forma sistemática (art. 3º, II e art. 6º, II).
  • A Anvisa avalia a cultura de segurança com o E-Questionário, versão brasileira do HSOPS da AHRQ, aplicado pela UFRN. A avaliação nacional é bienal, nos anos ímpares.
  • O manual da Anvisa de 2025 organiza o trabalho em cinco passos. Planeje ao menos 10 semanas; o sistema encerra a coleta em 3 meses.
  • Cada dimensão recebe um percentual de respostas positivas: 75% ou mais é fortaleza; abaixo de 50% é fragilidade.
  • Em 2023, 325 hospitais e 54.447 profissionais participaram. A pior dimensão foi resposta não punitiva para erros, com 31,8%.

O que é cultura de segurança do paciente

A RDC 36/2013, art. 3º, II, define cultura de segurança. Trata-se do conjunto de valores, atitudes, competências e comportamentos da equipe. Eles determinam o comprometimento com a gestão da saúde e da segurança. A norma completa: ela substitui a culpa e a punição pela oportunidade de aprender com as falhas. Na prática, cultura é o que a equipe faz quando ninguém está olhando. O questionário mede isso pela percepção de quem trabalha no hospital. Veja outros termos de segurança do paciente no glossário.

O que a norma exige

A RDC 36/2013 institui o Núcleo de Segurança do Paciente (NSP). O art. 6º, II, fixa como diretriz do NSP a disseminação sistemática da cultura de segurança. A norma não detalha o instrumento. Quem detalha é a Anvisa, pelo Plano Integrado para a Gestão Sanitária da Segurança do Paciente.

O Plano Integrado 2026-2030 prevê a Avaliação Nacional da Cultura de Segurança do Paciente nos anos ímpares, de forma bienal. A Meta 15 é ter 60% dos hospitais com UTI e 20% dos hospitais sem UTI participando até 2030. O plano anterior tinha meta de 35% só para hospitais com UTI. A participação é voluntária. Em 2023, só 15,1% dos hospitais com UTI participaram.

O instrumento é o E-Questionário de Cultura de Segurança Hospitalar, desenvolvido pela UFRN com o grupo QualiSaúde. Ele aplica o Hospital Survey on Patient Safety Culture (HSOPS), da AHRQ, traduzido e validado para o Brasil. A versão 1.0 tem 62 itens, com 42 no núcleo, em 12 dimensões. A versão 2.0 tem 40 itens em 10 dimensões e é a recomendada para avaliações novas. Quem já aplicou a 1.0 deve mantê-la para comparar no tempo. A Anvisa segue o Plano de Ação Global para a Segurança do Paciente 2021-2030 da OMS.

Passo a passo: os cinco passos do manual da Anvisa

O Manual do Usuário do E-Questionário, 2ª edição, de 04/08/2025, organiza a avaliação assim:

  1. Entenda os conceitos. O questionário é autopreenchido, anônimo e leva cerca de 15 minutos. Não é aplicado por entrevistador.
  2. Prepare-se. Defina as perguntas-chave, a equipe do projeto e o cronograma. O manual pede ao menos 10 semanas. A sensibilização começa duas semanas antes da abertura; o convite, uma semana antes.
  3. Defina quem responde. Censo ou amostra aleatória. Para hospital com até 500 profissionais, a amostra mínima com precisão de 5% é 220.
  4. Aplique o E-Questionário. Faça uma avaliação teste, cadastre os e-mails e envie. O sistema manda lembretes automáticos aos 7, 10 e 15 dias. Depois, amplie com link e QR Code nos setores. Encerre em até 2 meses; o sistema fecha sozinho em 3.
  5. Aprenda com os dados. O relatório sai automático, com as três dimensões mais fortes e as três mais fracas. Apresente às lideranças e às equipes e escreva o plano.
Regra do manual Valor
Duração mínima do projeto 10 semanas
Encerramento automático da coleta 3 meses
Taxa de resposta abaixo da qual se estende a coleta 50%
Mínimo de respostas para analisar um relatório 10
Fortaleza 75% ou mais de respostas positivas
Fragilidade menos de 50% de respostas positivas

Como calcular: o percentual de respostas positivas

Cada item tem escala de cinco pontos. Em item de redação positiva, contam como positivas as respostas "concordo" e "concordo totalmente", ou "sempre" e "quase sempre". Em item de redação negativa, a lógica inverte: "discordo" e "discordo totalmente" são as positivas. Respostas "não se aplica" e em branco saem do denominador. O percentual da dimensão é a média aritmética dos percentuais dos seus itens.

Exemplo do manual para a dimensão abertura para comunicação: três itens com 71%, 64% e 75% dão média de 70%. A dimensão fica na faixa intermediária. O sistema exclui questionários com menos de 50% dos itens válidos ou com a mesma resposta em tudo.

A taxa de resposta é o número de respostas válidas dividido pelo número de convidados. Em 2023, a média nacional foi 38,0%. Abaixo de 50%, o manual recomenda estender a coleta.

O relatório nacional de 2023, de 12/06/2024, serve de referência. As fortalezas foram aprendizagem organizacional (83,3%) e expectativas e ações da chefia (76,5%). As fragilidades foram resposta não punitiva para erros (31,8%), percepção de segurança (49,0%) e mudanças de turno e transições (49,7%). Só 42,6% dos profissionais disseram ter notificado ao menos um evento no ano.

Erros mais comuns

  • Aplicar o questionário sem sensibilizar antes. Taxa baixa invalida a leitura.
  • Escolher quem responde por conveniência. Só censo ou amostra aleatória representam o hospital.
  • Divulgar o percentual geral e esconder as dimensões fracas. A resposta não punitiva é a mais baixa do país.
  • Fazer a pesquisa e não escrever plano de ação. Avaliar é meio, não fim.
  • Trocar de versão do questionário entre avaliações e perder a comparação.
  • Deixar a avaliação com uma pessoa só, em planilha própria, fora do E-Questionário.

Como a SEVS resolve

A SEVS atende hospitais e clínicas em todo o Brasil. Seus profissionais compõem o NSP com colaboradores da unidade e conduzem a avaliação nos cinco passos do manual da Anvisa. O resultado por dimensão vira plano de ação com responsável e prazo. O acompanhamento fica no SentinelSaúde, junto com notificações e indicadores. Clínicas e hospitais atendidos pela SEVS operam a CCIH e o NSP conforme a norma, com registro auditável. Assim chegam à inspeção da Vigilância com a documentação pronta. Conheça a assessoria da SEVS.

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Perguntas frequentes

O que é cultura de segurança do paciente?

Pela RDC 36/2013, art. 3º, II, é o conjunto de valores, atitudes, competências e comportamentos da organização. Eles determinam o comprometimento com a gestão da saúde e da segurança. A norma destaca a troca da culpa e da punição pela oportunidade de aprender com as falhas.

Como aplicar a pesquisa de cultura de segurança?

Pelo E-Questionário da Anvisa, em cinco passos: entender os conceitos, preparar, definir quem responde, aplicar e aprender com os dados. Planeje 10 semanas, sensibilize duas semanas antes e encerre em até 2 meses. O sistema gera o relatório automaticamente.

O que é o HSOPSC?

É o Hospital Survey on Patient Safety Culture, questionário da AHRQ, agência norte-americana. A versão 1.0 brasileira tem 42 itens de núcleo em 12 dimensões; a 2.0 tem 40 itens em 10 dimensões. O E-Questionário da Anvisa aplica as duas versões.

A avaliação de cultura é obrigatória?

A RDC 36/2013 obriga o NSP a disseminar a cultura de segurança de forma sistemática, mas não impõe um instrumento. A avaliação nacional da Anvisa é voluntária. A Meta 15 do Plano Integrado 2026-2030 é 60% dos hospitais com UTI e 20% dos sem UTI participando.

Como melhorar o resultado da pesquisa?

Comece pelas dimensões abaixo de 50%, com plano de ação por setor e prazo. Dê devolutiva às equipes, mantenha a versão do questionário e reavalie no ciclo seguinte. O E-Questionário compara duas avaliações do mesmo hospital.

Imagem: Gustavo Basso, wikimedia (CC BY-SA 4.0)

Julliana Porto

Quem escreveu

Enf.ª Julliana Porto

Especialista em Gestão de Saúde, Controle de Infecção Hospitalar e Segurança do Paciente. Na área desde 2010, conduz tecnicamente o trabalho da SEVS em hospitais e clínicas.

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