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Artigos · CCIH

Bactéria multirresistente e Candida auris no hospital: o que a CCIH precisa fazer em 2026?

Por Enf.ª Julliana Porto · 28 de set. de 2026

Diante de bactéria multirresistente ou Candida auris, a CCIH precisa ser avisada imediatamente, instituir precaução de contato, ajustar a limpeza e notificar. Para Candida auris, o Alerta 01/2026 da Anvisa manda notificar o surto e enviar todo isolado ao Lacen imediatamente.

Resposta rápida

  • O Alerta de Risco 01/2026 da Anvisa, de 19/02/2026, confirmou Candida auris em Natal e reforçou as regras nacionais.
  • Caso suspeito ou confirmado de Candida auris: o laboratório avisa a CCIH imediatamente, e o hospital isola o paciente em precaução de contato.
  • A notificação de surto e o envio do isolado ao Lacen são imediatos, mesmo que o hospital tenha MALDI-TOF.
  • Até 02/03/2026, o Brasil registrou 24 surtos e 146 casos de Candida auris, com suspeitas notificadas por 15 estados.
  • O PNPCIRAS 2026-2030 fixa metas até 2030 para Klebsiella, Acinetobacter e Staphylococcus aureus resistentes em UTI.

O que é bactéria multirresistente no hospital

O PNPCIRAS 2026-2030 define resistência aos antimicrobianos como a capacidade de um microrganismo resistir à ação de um agente antimicrobiano. Na rotina hospitalar, o termo cobre a Klebsiella pneumoniae resistente aos carbapenêmicos, chamada de KPC. Inclui o Acinetobacter com a mesma resistência. Cobre também o Staphylococcus aureus resistente à oxacilina (MRSA). A OMS associa a resistência bacteriana a mais de 4,7 milhões de mortes no mundo em 2021. Candida auris é um fungo emergente, listado como prioridade crítica pela OMS. Segundo o Alerta 01/2026, até 90% dos isolados são resistentes a fluconazol, anfotericina B ou equinocandinas. Ele sobrevive semanas ou meses no ambiente e resiste a desinfetantes à base de quaternário de amônio.

O que a norma exige

A NT 02/2022 da Anvisa, revisada em 12/12/2024, é a orientação vigente para Candida auris. Ela determina que as comissões de controle de infecção de todos os hospitais façam vigilância ativa de casos suspeitos. Diante de um caso, a comissão deve isolar o paciente imediatamente, com precaução de contato somada à precaução padrão. Deve notificar o caso no formulário nacional de surtos infecciosos. Deve informar a coordenação estadual de controle de infecção (CECIRAS) e encaminhar o isolado ao Lacen.

O Alerta 01/2026 repete e reforça essas regras. O laboratório de microbiologia informa a CCIH imediatamente diante de qualquer suspeita. O serviço mantém POPs atualizados para surto por Candida auris, em especial o de limpeza e desinfecção de superfícies. A notificação de surto não depende do laboratório: mesmo com MALDI-TOF ou sequenciamento, o hospital notifica e envia todos os isolados ao Lacen.

Para as bactérias multirresistentes, a NT 02/2026 obriga hospitais com UTI a notificar mensalmente IRAS e resistência. O prazo é o 15º dia após o mês de vigilância. A mesma nota lembra a RDC 36/2013: a vigilância das IRAS e da resistência é dever de todos os serviços de saúde do país. Quem não envia o formulário nacional apresenta os dados à autoridade sanitária quando solicitado.

Passo a passo: do resultado do laboratório à notificação

  1. Reconhecer a suspeita. A NT 02/2022 alerta que métodos fenotípicos, inclusive sistemas comerciais, podem identificar Candida auris erroneamente como Candida haemulonii. Qualquer resultado desse grupo exige confirmação por MALDI-TOF ou método molecular.
  2. Avisar a CCIH imediatamente. O fluxo entre laboratório e comissão precisa estar escrito e testado.
  3. Isolar e instituir precaução de contato, em adição à precaução padrão. Quarto individual sempre que possível; na falta dele, coorte de pacientes com o mesmo microrganismo e separação de pelo menos 1 metro entre leitos.
  4. Ajustar a limpeza. A NT 02/2022 pede limpeza concorrente três vezes ao dia em UTI e duas vezes em enfermaria. A desinfecção usa peróxido de hidrogênio, hipoclorito de sódio ou produto com eficácia comprovada contra Candida auris junto à Anvisa.
  5. Revisar equipamentos compartilhados. No primeiro surto brasileiro, termômetros digitais axilares tiveram 17% de culturas positivas. Durante o surto, a nota recomenda termômetro sem contato.
  6. Notificar o surto no formulário nacional da Anvisa e informar a CECIRAS do estado. Anexar ao menos um relatório parcial de investigação, ainda que o surto seja só suspeita.
  7. Enviar o isolado ao Lacen, com autorização da CECIRAS, e acompanhar o encaminhamento.
  8. Vigiar contatos. A nota orienta a coleta de amostras de vigilância, com atenção aos pacientes da mesma UTI, quarto ou enfermaria.

Critérios: as metas do PNPCIRAS 2026-2030 para resistência

O objetivo específico 4 do PNPCIRAS 2026-2030 é prevenir e controlar a disseminação de multirresistentes prioritários e patógenos emergentes. Ele traz três metas para a infecção primária de corrente sanguínea laboratorial associada a cateter central (IPCSL), até 2030.

Meta Microrganismo UTI adulto UTI pediátrica UTI neonatal
13 Klebsiella pneumoniae resistente aos carbapenêmicos ≤ 25% ≤ 24% ≤ 15%
14 Acinetobacter spp. resistente aos carbapenêmicos ≤ 29% ≤ 15% ≤ 15%
15 Staphylococcus aureus resistente à oxacilina ≤ 40% ≤ 30% ≤ 30%

A meta 7 do programa pede, até 2030, 90% dos hospitais com UTI adulto avaliados com seis protocolos implantados. Um deles é o protocolo de precaução e isolamento. Sem ele, o hospital não responde com rapidez a uma KPC ou a um caso de Candida auris.

Erros mais comuns

  • Tratar o laudo com Candida haemulonii como achado banal, sem pedir confirmação por MALDI-TOF.
  • Esperar a confirmação do Lacen para começar a precaução de contato. A NT 02/2022 manda isolar na suspeita.
  • Usar desinfetante à base só de quaternário de amônio no quarto do paciente. O Alerta 01/2026 registra a resistência do fungo a esse produto.
  • Deixar de notificar o surto porque o hospital "já identificou por MALDI-TOF". A notificação e o envio ao Lacen são obrigatórios mesmo assim.
  • Não sinalizar o prontuário. A NT 02/2022 pede a marcação para readmissão ou transferência. O CDC lembra que a colonização pode durar muitos meses.

Como a SEVS resolve

Profissionais especializados da SEVS compõem a CCIH e o NSP com colaboradores da unidade, em todo o Brasil. O fluxo do laboratório até a notificação fica escrito, com responsáveis e prazos. O protocolo de precaução e isolamento é implantado e conferido em rondas. No SentinelSaúde, a busca ativa registra cada caso e os indicadores saem prontos para o formulário mensal. As notificações de surto ficam documentadas. O serviço chega à inspeção da Vigilância com a documentação pronta. Conheça a assessoria da SEVS.

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Perguntas frequentes

O que é Candida auris?

É um fungo emergente, listado como prioridade crítica pela OMS. Segundo o Alerta 01/2026, até 90% dos isolados resistem a fluconazol, anfotericina B ou equinocandinas. Ele forma biofilme e sobrevive semanas ou meses no ambiente. No Brasil, 89% dos casos foram colonização e 11% infecção.

O que fazer quando o laboratório identifica KPC?

O laboratório avisa a CCIH e o paciente entra em precaução de contato. Hospitais com UTI notificam a resistência à Anvisa até o 15º dia do mês seguinte, conforme a NT 02/2026. Vários casos no mesmo setor configuram suspeita de surto, notificada no formulário nacional.

Bactéria multirresistente exige quarto privativo?

A NT 02/2022 orienta quarto individual sempre que possível para pacientes em precaução de contato. Sem quarto, pacientes com o mesmo microrganismo ficam em coorte, com pelo menos 1 metro entre leitos e equipe fixa.

Qual desinfetante usar contra Candida auris?

A NT 02/2022 indica peróxido de hidrogênio, hipoclorito de sódio ou produto com eficácia comprovada junto à Anvisa. Produtos à base só de quaternário de amônio não funcionam. Siga a diluição e o tempo de contato do rótulo.

Multirresistente é de notificação obrigatória?

Sim, de duas formas. Hospitais com UTI e serviços de diálise notificam mensalmente IRAS e resistência, pela NT 02/2026. Qualquer serviço notifica suspeita de surto no formulário nacional da Anvisa. Para Candida auris, cada caso suspeito ou confirmado é notificado assim que ocorre.

Julliana Porto

Quem escreveu

Enf.ª Julliana Porto

Especialista em Gestão de Saúde, Controle de Infecção Hospitalar e Segurança do Paciente. Na área desde 2010, conduz tecnicamente o trabalho da SEVS em hospitais e clínicas.

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